Travessia Petrópolis - Teresópolis - RJ
Serra dos Órgãos

Dedo de Deus          Amigos trekkeiros, como já dissemos antes aqui no Jornal do Trekking, somos verdadeiros apaixonados pela prática do trekking. Mas como não poderia deixar de ser, estamos sempre buscando novos desafios, uma dose mais alta de adrenalina, superação e acima de tudo, procuramos sempre motivos para reencontrar e fazer amigos.

          Em uma conversa sobre trekking, é claro, surgiu a idéia de fazermos uma caminhada, porém, sem competição; algo contemplativo, em busca da natureza, curtição, superação de obstáculos. Depois de analisarmos algumas opções aqui em Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro, chegamos à conclusão, através de reportagens, sites, informações e depoimentos pessoais que a travessia Petrópolis à Teresópolis, conhecida como PETERÊ, cruzando o Parque Nacional Serra dos Órgãos, era uma das mais bonitas do Brasil, mas também, muito difícil.

          Conhecida desde a época do Império, a Serra dos Órgãos, nome este associado aos tubos de um órgão musical formado pela seqüência de seus picos, encanta a todos pela exuberância da sua beleza natural, emoldurada pelos paredões que esconde várias surpresas: cachoeiras, pedras, grutas e a vegetação predominante da mata atlântica.

          Bom, pensamos, não temos tanta experiência assim em longas travessias, tampouco conhecemos o lugar escolhido e nem temos equipamentos adequados, mas temos muita vontade e a certeza de alcançar mais um objetivo. Começa assim nossa preparação para a travessia, iremos fazer a PETERÊ.

          Nosso primeiro passo foi contatar nosso amigo Matheus, o Gãozinho, da Bela Geraes Turismo, que se prontificou imediatamente a coordenar o grupo e programar a viagem, aliás, já estava também nos planos dele fazer essa travessia. Para ajudá-lo neste roteiro, foi contatado o Geovane, um guia muito experiente na região e que também já era velho conhecido nosso no trekking aqui em Minas. Marcamos a data da travessia para acontecer nos dias 07, 08 e 09 de junho de 2007, aproveitando o feriado nacional.

          O segundo passo foi avaliarmos nosso condicionamento físico, fazendo uma travessia-treino, que aconteceu no dia 12 de maio, com os pretendentes à viagem. Colocamos todos os equipamentos que tínhamos ou pretendíamos levar nas mochilas cargueiras e fizemos uma travessia partindo do Parque Mangabeiras, em Belo Horizonte, pela Serra do Curral, passando pelo Pico Belo Horizonte, há 1.390 metros de altitude, com duração de 05 horas, aproximadamente, 12 km de caminhada, de moderada à pesada, curtindo um visual maravilhoso e bem diversificado, até o município de Nova Lima, onde chegamos com a certeza que estávamos aptos para fazer a PETERÊ.

          O terceiro passo para a preparação foi a aquisição dos equipamentos especificamente para esse novo desafio. Para tanto, foi feita uma reunião no dia 17 de maio, aonde podemos contar com as dicas do Henrique e do Wellinton sobre os itens mais indicados e a maneira adequada de montar uma mochila. Como Petrópolis é uma região serrana, com muita umidade, com certeza teríamos baixas temperaturas, aliado ao fato de fazermos o passeio próximo ao inverno, o que nos foi recomendado, pois nessa época temos baixos índices pluviométricos. Para esse passo, pesquisamos em várias listas disponíveis na internet, algumas incompletas, outras com certo exagero, contando, também, com a ajuda do montanhista experiente, nosso amigo Tiago Negreiros. Montada a lista de equipamentos necessários, partimos para pesquisar e comprar o que estava faltando, ou seja, quase tudo. O importante para esse tipo de travessia, além da boa forma física, é a preocupação com segurança, frio e umidade em excesso.

          Estávamos prontos, preparados, animados e só faltava mesmo colocar mochila nas costas e a bota na estrada. Era perceptível a ansiedade de todos para o início da conquista da PETERÊ. Começa enfim, nosso maior desafio trekkeiro.

          Partimos de Belo Horizonte no dia 06 de junho, às 23:00, com destino ao Distrito de Correias, em Petrópolis, ponto de encontro com o guia Geovane, chegando no Parque Nacional Serra dos Órgãos às 08:00 horas da manhã do dia seguinte. A viagem foi tranqüila exceto por alguns “trovões” ocorridos no interior da van durante a viagem.

          Tudo dentro do previsto, chegamos ao ponto de apoio Campo de Aventuras Paraíso Açu, último acesso de carro, ficando bem próximo da entrada do Parque Serra dos Órgãos, no município de Petrópolis. Dali iniciamos nossa caminhada, em busca de alcançar mais um objetivo traçado para nossas vidas.

          No primeiro dia de caminhada, composto, quase que 90% do trajeto, de subidas, chegamos, após sete horas de caminhada, aproximadamente 07 km, no acampamento selvagem do Açu, há 2.234 metros de altitude. Mas para chegarmos lá, passamos por lugares de rara beleza com visuais jamais vistos por nós. A primeira parada para contemplação se dá na entrada da Gruta do Presidente com a Cachoeira Véu da Noiva; mais a frente, chegamos à Pedra do Queijo, de onde se avista o Vale do Bonfim. Após passarmos pelo morro do Ájax (“Ah, já que estamos aqui, vamos continuar”), chegamos na famosa subida da Isabeloca, nome este dado em homenagem à passagem da Princesa Isabel em lombo de mulas. Esta subida é a mais íngreme da caminhada. Depois dessa subida que parece não ter fim, avistamos a cidade do Rio de Janeiro, a Baía de Guanabara e, ao longe, a pedra Dedo de Deus, considerado o símbolo do montanhismo brasileiro. Continuando, chegamos ao Chapadão, de onde já se consegue ver os Castelos do Açú com uma formação rochosa cheia de reentrâncias, aonde é possível se abrigar de vento e chuva, e a Pedra do Açú, com 2.216 metros de altitude. Mais um pouco de caminhada, chegamos ao Acampamento do Açu, local de nossa primeira pernoite, com direito a frio e sensação térmica de 2 graus, aos mais corajosos, um banho gelado de caneca, escondido atrás do capim anta (“só o Mateus mesmo”); para outros, limpar-se com lenços umedecidos e dizer que “o banho foi tomado”, ver uma fina camada de gelo sobre a barraca, dar gargalhadas ao ver nossa amiga sentar-se na banana dentro da barraca, mas também, se aquecer com o calor humano e se deliciar com o sopão e o capelleti preparado com muito carinho pelo Geovane.

          Superado o primeiro dia, sendo acordados com um lindo nascer do sol e um delicioso café da manhã, estávamos revigorados para continuarmos nossa caminhada que iniciou-se às 09:00, sem saber o que enfrentaríamos neste novo dia, mas isto pouco importava, a nossa certeza era de mais um dia de superação, com muito divertimento e alegria. Logo no início, uma descida íngreme, escorregadia, mas quando olhávamos para o alto, avistávamos um enorme morro, o Morro do Marco, aonde chegamos após superar os primeiros obstáculos do dia. Mais uma descida, desta vez até o Vale da Luva, uma subida, até o Morro da Luva, passando pelas Cachoeirinhas e foi assim o dia, descendo vales e subindo morros. Entre descidas e subidas, nos acompanhava a Pedra Dedo de Deus, cada vez mais próxima, parecendo aos nossos olhos, que Deus escolheu aquele lugar para demonstrar toda sua divina arte e todo seu especial toque. Chegamos ao famoso elevador, nome este associado ao fato da subida “elevar a dor”. Ele é composto por 42 degraus de ferro que exige muito equilíbrio e uma dose extra de adrenalina. Na seqüência, chegamos ao Morro do Dinossauro, de onde avistávamos o Morro do Garrafão; descemos o Vale das Antas, subimos até o Dorso da Baleia, tendo ao fundo a vertente da Pedra do Sino, nosso objetivo do dia. Continuando, descemos uma grota, chegamos ao Vale do Eco e nos deparamos com o paredão que nos levaria até a Pedra do Sino, passando pela canaleta do sino, subida íngreme, onde todos ficaram ansiosos esperando o momento de fazer o “cavalinho”. O “cavalinho” é o local mais perigoso da travessia, por estar na canaleta, com pedras que impedem a passagem dos trekkeiros com tranqüilidade. Havia uma estrutura montada para nos auxiliar na travessia, com dois guias e cordas, mas estas, apenas para puxar as mochilas. Superamos as pedras utilizando apenas a força de nossos braços e pernas, contando com o auxílio dos guias. Continuando a subida, em uma trilha estreita, mais um obstáculo foi transposto, contornamos a Pedra do Sino até pegar a trilha que nos levaria ao seu cume, com seus 2.263 metros de altitude. Após nove horas de caminhada pesada e com grandes doses de adrenalina, a paisagem que se via lá apagava qualquer resquício de cansaço. Descemos mais um pouco, de onde já avistávamos o Abrigo Quatro, área do acampamento, quando pudemos nos apaixonar com um belíssimo pôr-do-sol, inacreditável como tudo nesta travessia: se consegue visualizar a todo o momento aonde se quer chegar, mas não imagina que terá que andar tanto, subir tanto e dar tantas voltas até atingir o objetivo, no final, tudo é compensador. Após caminharmos, por quase 12 km, enfim, chegamos: barracas montadas, “banhos” tomados, alguns realmente tomaram banho, depois de pagarem R$5,00 e ficar, pelos menos, umas duas horas na fila de espera, japoneses, jantar, alguns se aventurando no frio até a Pedra da Baleia para ver as luzes da cidade maravilhosa, enquanto outros descansavam, depois um jogo acirrado de “purrinha”, enfim, esperávamos a chegada do próximo dia.

          Nosso terceiro dia de caminhada iniciou mais cedo, por volta das 06:00, quando fomos até a Pedra da Baleia ver o nascer do sol. De lá pudemos contemplar um mar de nuvens entrelaçadas entre os picos, contrapondo com a lua e com uma pedra sobre um dos picos conhecida como a Verruga do Frade. Voltamos para o acampamento, tomamos café para iniciar nossa descida até a entrada do parque, em Teresópolis, estimada em 11 km. Durante a descida, esta, bem leve e tranqüila, sombreada pela mata, pudemos deparar com uma grande quantidade de orquídeas e bromélias, passamos pelas cachoeiras Véu de Noiva e Cascata, avistamos a Granja Comary, os mares de montanhas, mas, o mais incrível e monumental, é a vista, a mais próxima de todas, do Dedo de Deus, nos dando a certeza que em tudo que vivemos e pudemos desfrutar Ele estava ali, presente, verdadeiramente em tudo. Depois de um pouco mais de seis horas de caminhada, chegamos a sede do parque, cansados, satisfeitos, não apenas pela superação de mais um objetivo, mas com a certeza que a caminhada foi exuberante, desafiadora, tentadora e acima de tudo muito, prazerosa. Mesmo com o esforço físico exigido além do que já estamos acostumados, temperaturas e umidade diferentes das que temos no trekking em Minas, tudo valeu a pena, pelas paisagens jamais vistas, a consolidação e os amigos conquistados, cada momento vivido, tudo isto fez com que esquecêssemos o esforço e as dificuldades empreendidos na travessia.

          E por falar em amigos, é imprescindível destacar aqui as qualidades de cada participante nesse desafio: Otávio Jyoti, sempre amigo, provando para todos que a idade de cada um está na cabeça e não no corpo (“vou mimi gotoso”); Gãozinho, nosso idealizador, sempre com Deus na frente de tudo e preocupado com todos; Lucienne, mostrando superação sempre com muita garra e alegria; Viviane, a jovialidade presente, sorriso estampado no rosto o tempo todo; Cássia, todo carinho, toda paciência, aceitando as brincadeiras com todo seu peculiar bom humor (“quem deixou uma banana no meio da barraca?”), o casal Rodrigo e Patrícia, mostrando a todos que quando temos uma vida em comum, juntos superamos qualquer obstáculo; Mateus, com toda sua fé e a certeza que este seria apenas mais um desafio para nossas vidas. Cada um com suas individualidades, mas que somadas contribuíram para a integração do grupo, onde todos conquistaram um objetivo: PETERÊ.

          Não podemos também esquecer de citar aqui e com muita ênfase o nosso guia Geovane e sua equipe, especialmente, o André: jamais foi visto em trekking tamanho profissionalismo, competência e preocupação com a segurança da turma.

          Foi uma excelente experiência, pelo trekking e pela superação. Tenham em mente que para fazer esta travessia, realmente é necessário um bom planejamento e preparo físico, e isto não quer dizer somente preparo em relação às pernas, que são extramente exigidas, com subidas íngremes, descidas escorregadias e perigosas, mas também de toda a musculatura do corpo, pois é necessário carregar durante todo o trajeto, uma cargueira com mais de 10 quilos de equipamentos.

          Foi, sem dúvida alguma, mais uma conquista em nossas vidas, talvez a maior, o lugar mais lindo que caminhamos, o mais difícil e incrivelmente superado; não importa, cada um com suas definições, identificações e lembranças pessoais. Parabéns a todos que puderam participar dessa aventura e chegaram ao final, exaustos, fisicamente, mas renovados de satisfação. Faremos novos passeios, mas temos a certeza que PETERÊ é única.

          “Que nossos esforços desafiem as impossibilidades, lembrai-vos que as grandes proezas da história foram conquistadas do que parecia impossível.” Charles Chaplin

Texto e fotos: Cássia Fabiana e Mateus Rezende

Cadastre seu e-mail:


 

Parceiros