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Parque Nacional da Serra do Cipó - MG
Edu Issa – 05 de Setembro de 2006.

Vestígios do passado persistem na paisagem
rochosa deste parque onde as flores inspiram e fascinam
viajantes. A cordilheira do Espinhaço é majestosa, está presente
em boa parte de Minas e corta a paisagem do parque. Suas
formações refletem o grande movimento de placas que ocorreu na
região onde rochas pontiagudas permaneceram inclinadas todas na
mesma direção, como se estivessem reverenciando os deuses
responsáveis por estas transformações. Visando proteger esta
grande cadeia montanhosa que funciona como uma espinha dorsal do
centro do Estado e abriga centenas de nascentes, foi criado em
novembro de 1984 o Parque Nacional da Serra do Cipó. O parque
ocupa uma área de 33.800 ha, recheados de belas cachoeiras,
lagoas e cânions, além disto, é considerado por estudiosos como
um dos lugares com o maior número de plantas por metro quadrado
do planeta. Já é mais de 1500 espécies catalogadas, entre elas a
admirada sempre-viva, presente em boa parte dos campos rupestres
e que por pouco não foi extinta devido à retirada indiscriminada
por moradores antigos.

A história da ocupação desta região é bem
antiga, há vários sítios arqueológicos, pinturas rupestres
encontradas em grutas, muitos indícios de que comunidades
primitivas viveram nesta área em tempos remotos. Muitos anos à
frente deste período, a Serra da Vacaria, nome dado pelos
Bandeirantes e que depois passou a se chamar Serra do Cipó, se
transformou numa importante rota por onde passavam todo ouro e
diamante encontrado em várias localidades mineiras. Atualmente,
a Estrada Real, trecho compreendido entre Diamantina (Minas
Gerais) e Paraty (Rio de Janeiro), tornou-se um grande foco
turístico e vem atraindo milhares de aventureiros que vem para a
região em busca da história e também de ecoturismo.
Voltando a paisagem do parque, toda
aridez da serra parece contestar a vivacidade das flores, mas
botânicos afirmam que algumas espécies como as canelas-de-ema,
crescem entre os aglomerados rochosos aproveitando a água que
cai do orvalho da noite. Estas plantas utilizam a matéria
orgânica acumulada no caule e sobrevivem com pequenas porções de
água armazenadas entre as folhas secas caídas. A definição de
cerrado, com árvores tortuosas espalhadas, folhas resistentes,
nesta região perde espaço para os campos rupestres, com uma
vegetação rasteira composta por gramíneas e plantas de porte
arbustivo.
A estrutura desta extensa faixa
montanhosa são quartzitos, rochas formadas a partir da areia do
fundo do mar, lembrando que aqui como em várias outras regiões,
já foi um grande oceano. A disposição dessas rochas nas encostas
das montanhas fez da Serra do Cipó uma paisagem peculiar e
inesquecível. O parque conta com uma boa estrutura para receber
visitantes e diferente de vários outros parques onde a presença
de animais domésticos é expressamente proibida, no Cipó é
possível alugar um cavalo e conhecer a Cachoeira da Farofa, a
queda mais visitada da unidade. O nome farofa, ao contrário do
que muitos pensam, se refere à água que cai do alto e se
esfarela nas rochas que cercam um belo poço.

Para quem gosta de longas caminhadas o bom
mesmo é visitar a Cachoeira da Farofa e o Cânion das
Bandeirinhas, o percurso todo é de 16 km (ida e volta), mas se
prepare para o mergulho na Farofa, a temperatura da água é
congelante. No Cânion das Bandeirinhas, um desfiladeiro de 80
metros recortado pelo Rio Mascate, é envolvido por milhares de
pedras que despencaram do alto e agora fazem parte deste cenário
memorável.
Alguns atrativos do parque são mais
complicados de se chegar, entre eles o Travessão, uma caminhada
de cerca de 3 horas com boas subidas, é bom ir acompanhado de um
guia. O Travessão é um grande vale localizado no alto da Serra
do Espinhaço, de proporções imponentes e o vale funciona como
divisor de duas grandes bacias hidrográficas de Minas, a do Rio
Doce e a do Rio São Francisco. O Vale do Travessão também era o
único local onde os viajantes podiam atravessar de uma serra
para outra levando toda tralha que envolvia as grandes
empreitadas dos Bandeirantes.
Na volta do Travessão, conheça a estátua
construída em homenagem ao Juquinha, um antigo e carismático
morador da serra, que costumava colher flores nos campos e
presentear visitantes. Se você quiser conhecer uma figura ainda
mais surpreendente, siga até a cidade de Morro do Pilar, depois
pela estrada para Itambé e no meio do caminho, no lado esquerdo
uma lapa esconde um personagem. Uma espécie de ermitão que
abdicou de tudo e foi viver sozinho numa lapa (gruta). Seu
Domingos é uma pessoa lúcida e falante, conta vários causos ao
mesmo tempo, por viver isolado, sente falta de uma boa conversa,
portanto o difícil é sair dali sem interromper uma estória de
Seu Domingos.
Um passeio imperdível para os mais
aventureiros é pegar uma canoa canadense e navegar pelo Rio
Cipó. As águas calmas do rio e toda vegetação da margem são
emolduradas pela grande Serra do Espinhaço. Depois de poucos
quilômetros rio acima é possível observar capivaras descansando
e se alimentando nas margens do rio. O mais interessante é que
elas são tranqüilas e já acostumaram com a presença humana no
rio, portanto remando devagar e sem muito barulho é possível
chegar a poucos metros dos bichos sem afugentá-los.
Alguns problemas rondam o interior do parque, entre eles a
regularização fundiária da área, um problema que afeta grande
parte dos parques brasileiros e, além disto, à proximidade de um
grande centro urbano como Belo Horizonte aumenta a pressão de
moradores.
Em relação ao plano de manejo da unidade, os
próprios funcionários do parque estão à frente da execução do
plano, ao contrário de outros parques que contratam empresas
especializadas no serviço. Para João Madeira, analista ambiental
que está coordenando os trabalhos, muitos dos planos de manejo
elaborados da forma como eram antes dos concursos do Ibama foram
caros e não atenderam às necessidades das unidades. Madeira
ainda ressalta que realizar o trabalho internamente é uma
tentativa de aproveitar uma mão de obra de que antes não se
dispunha e que agora existe e tem como obrigação planejar as
ações de conservação e manejo das unidades de conservação sob a
gestão do IBAMA`. Em minha opinião, esta é uma iniciativa
questionável, pois o trabalho interno dos funcionários do parque
não pode ser colocado de lado para a execução do plano de
manejo.
Apesar do empenho e dedicação de Henry Collet,
atual chefe da unidade, o mesmo vem sofrendo pressões por ter
sido indicado para o cargo. Há muitas coisas a serem feitas no
parque, entre elas a adequação de uma estrutura compatível com a
sua importância no Estado. Na minha passagem pela Serra do Cipó
o telefone do parque estava cortado por falta de pagamento, não
havia conexão com Internet e mais alguns problemas de ordem
básica, situação que compromete o bom funcionamento de um parque
nacional.
Problemas à parte, o que se vê na Serra do
Cipó é um conjunto de belíssimas paisagens, campos que florescem
o ano todo e a cada estação muda de cor. As florações das muitas
espécies vão se revezando ao longo do ano, colorindo as trilhas
que levam as lindas cachoeiras, vales e cânions. Dar um giro de
carro pelos arredores também vale a pena, conhecer um pouco mais
da história da região e algumas cachoeiras que estão fora dos
limites da unidade, mas também são belíssimas.
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